O que é transtorno mental?

Não é fácil diferenciar o normal do patológico. Momentos de tristeza, choros e ansiedade podem ser tanto normais quanto sintomas de alguma doença mental.

De acordo como DSM-V¹, transtorno mental é “uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes.”

Só por essa definição já dá para ter uma ideia de quão complexa é a questão. 

Qual a importância do psiquiatra nesse processo?

O trabalho do psiquiatra vai muito além de medicar, isso é uma parte do seu trabalho.

Do ponto de vista prático, quando recebemos um cliente é fundamental fazer uma anamnese mais completa possível, devemos estar abertos a escutar tudo o que ele tem para falar. Tudo importa e é com essas informações que determinaremos o grau de sofrimento e de impacto em todos os aspectos da vida do nosso cliente.

É necessário ter empatia ao sofrimento psíquico do paciente e bastante dedicação para amenizar a dor e se, possível, remitir o quadro.

O paciente precisa ser avaliado como um todo, ele não é “só um cérebro”, o ser humano não pode ser segmentado. Fundamental investigar o funcionamento global do seu organismo, sobretudo, o intestino pois a relação do cérebro com o intestino já está muito bem estabelecida, ou seja, tudo o que ele come e como absorve os nutrientes influencia na saúde mental.

É preciso solicitar exames laboratoriais e de imagem para excluir outras causas e não para dar o diagnóstico. Nenhuma doença mental é diagnosticada por exames, o diagnóstico é clínico.

Ao fazer o diagnóstico de algum transtorno mental, começamos o planejamento terapêutico mais adequado.

Sempre, mas sempre mesmo, é importante investir em qualidade de vida. 

A medicina do estilo de vida defende alguns pilares que são a dieta, a atividade física regular, a qualidade de sono, as maneiras de evitar o estresse e o uso de substâncias. Essas recomendações agem como preventivos de doenças crônicas (a doença mental também está incluída) e como tratamento.

Além disso a criação de bons vínculos sociais e uma rede de apoio efetiva e estímulos cognitivos adequados também se mostram eficazes na prevenção e no tratamento das patologias mentais. 

A psicoterapia tem um papel de extrema importância já que proporciona ao paciente a chance de mudança de pensamento e comportamento. É desafiador se perceber e entender como podemos levar a vida de uma outra maneira, como podemos reagir menos a algumas situações mais perturbadoras. A psicoterapia é momento precioso para mudar padrões e levar uma vida mais leve.

É processo por muitas vezes doloroso e é preciso muita força de vontade do paciente para mergulhar nesse processo de autoconhecimento.

Quando utilizar as medicações psicotrópicas?

As medicações são indicadas para casos de leve intensidade que não melhoraram com as medidas descritas acima e para casos moderados a grave independente da resposta as mudanças de qualidade de vida e psicoterapia.

De maneira geral, as doenças psiquiátricas são consideradas crônicas e por isso exigem tratamento a longo prazo. É o mesmo que acontece com doenças como a hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e doenças tireoideanas.

Por isso o uso das medicações tem que ser constante pois se retirarmos há risco de descompensação do quadro. Isso não significa que a pessoa se tornou dependente do remédio, é a própria característica da doença que justifica o uso contínuo dos remédios. Aliás, é só uma parte bem pequena dos psicotrópicos causa dependência.

O tratamento psiquiátrico e psicoterápico tem que ser desmistificado e estimulado. A saúde mental tende a ser negligenciada por boa parte das pessoas. O tratamento precoce das doenças mentais é fundamental para o alívio imediato dos sintomas, para a maior chance de remissão e para o melhor prognóstico.

Drª Juliana Pires Cavalsan, médica psiquiatra e fundadora do Projeto Sentir Materno que se dedica ao estudo da saúde mental das mulheres.
Site: julianacavalsan.com.br
Instagram: @sentirmaterno

Compartilhar: